segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Uma boa safra de escândalos contábeis

Ao ler o texto, abaixo, fiquei me indagando: afinal o que faz um auditor? Qual a sua função? Deve o auditor tornar público os erros encontrados na auditoria? Qual a real influência ao comunicar as ressalvas encontradas nas auditorias? Como ser imparcial ou até que ponto ser imparcial se quem paga a conta é o próprio cliente? É ético denunciar um cliente que abriu as portas de suas atividades na busca de se certificar que seu pessoal trabalhou corretamente? Leiam e pensem. Esqueçam definições, pensem em valores deem soluções.


Por Jonathan Weil |  Bloomberg


Se você por acaso adora acompanhar escândalos contábeis, então possivelmente  nunca viu um período tão bom como os últimos meses, encerrado com chave de ouro  pelos desdobramentos do desastre na Olympus. Por outro lado, se você trabalha  como auditor numa grande firma de contabilidade, ficou muito mais difícil  justificar que a sociedade deva valorizar os seus serviços.

O golpe praticado na Olympus era simples, ainda que os meios tenham sido, por  vezes, exóticos. A fabricante japonesa de câmeras e endoscópios ocultou  prejuízos tratando-os como ativos. Segundo a companhia, assim foi desde os anos  1990. Isso poderia ter permanecido em segredo, caso o executivo da Olympus, um  britânico chamado Michael C Woodford, não tivesse feito pressão internamente  para resolver o assunto, em resposta a uma reportagem de uma revista japonesa  sobre alguns dos negócios menos ortodoxos da companhia. O conselho de  administração da Olympus reagiu demitindo Woodford, apenas seis meses no cargo.  Agora, vemos que suas advertências sobre as finanças da empresa estavam  certas.

Onde estavam os auditores? Embora ainda não conheçamos a plena extensão do  que eles sabiam e quando, basta ver quem eram os auditores externos para  saborear o fascínio da história.

A auditoria da Olympus na década de 1990 era a afiliada japonesa da Arthur  Andersen, à época uma das chamadas "Cinco Grandes" firmas de contabilidade.  Depois que a Andersen entrou em colapso em 2002, a KPMG adquiriu sua operação no  Japão, que atuava sob o nome de Asahi & Co, e assumiu a auditoria da  Olympus. A KPMG permaneceu como auditora até 2009. A Olympus passou a usar os  serviços da Ernst & Young no fim daquele ano.

Desse ângulo, parece que os fantasmas de Andersen ainda estão assombrando os  corredores empresariais. A firma foi indiciada em 2002 devido a sua conduta como  auditora da Enron, empresa americana de energia, no que equivaleu a sua sentença  de morte. Na esteira desses acontecimentos, grandes fraudes contábeis vieram à  tona em muitos dos ex-clientes da empresa - uma lista de nomes onde compareceram  a WorldCom, Dynegy, Qwest, Freddie Mac e Refco. A Olympus parece estar a caminho  de entrar para a mesma lista. Foi necessária apenas cerca de uma década a mais  para os problemas emergirem.

O "Financial Times" informou no mês passado que a KPMG efetivamente levantou  em determinado momento algum questionamento sobre a contabilidade da Olympus.  Nenhuma divergência entre a KPMG e a Olympus foi divulgada publicamente, embora  saiba-se agora que houve divergências, segundo um artigo, em 4 de novembro, no  jornal britânico "Daily Telegraph".

A Ernst & Young também não levantou quaisquer problemas.

O mais recente relatório de auditoria da E&Y, firmado em 29 de junho,  observou que a firma auditou as demonstrações financeiras da Olympus apenas para  os anos fiscais de 2010 e 2011, e que os livros da empresa referentes a 2009  foram examinados "por outros auditores", que apresentaram um parecer sem  ressalvas". Agora, tanto a Ernst & Young como a KPMG estão numa saia  justa.

Podemos ouvir ecos de escândalos passados também no colapso da MF Global  Holdings, construído em parte por meio de uma aquisição dos ativos da Refco em  2005, depois que a corretora de futuros faliu naquele mesmo ano. Os espectadores  do escândalo Enron podem recordar, por exemplo, que os executivos da empresa de  Houston não tinham como controlar a quantidade de dinheiro que a companhia tinha  em determinado momento. Após as falências da Enron e da WorldCom, o Congresso  aprovou em 2002 uma lei exigindo que os altos executivos certificassem a  eficácia dos controles internos de suas empresas sobre seus relatórios  financeiros. Relatórios de auditores sobre os controles internos tornaram-se  também uma exigência.

A PricewaterhouseCoopers, auditoria externa da MF Global, disse em maio, que  os controles MF estavam em ordem, e que tudo estava bem também com Jon Corzine,  à época executivo-chefe da MF. Se essas afirmações estavam corretas é algo agora  em questão. Mais de uma semana após a MF ter pedido concordata, há ainda cerca  de US$ 600 milhões de clientes desaparecidos sem causa definida.

Então, no mês passado, houve a implosão do Dexia, gigantesco banco  franco-belga que recebeu um socorro do governo para evitar seu colapso. Em  março, o Dexia recebeu um parecer positivo da afiliada belga da Deloitte &  Touche. O mercado finalmente percebeu que seu balanço era uma farsa.

São tantas as grandes companhias que sofreram colapsos após terem sua  contabilidade aprovada pelas Quatro Grandes firmas de auditoria que muita gente  considera seus pareceres uma piada. Afinal de contas, é o cliente quem paga as  auditorias. (Opa, nenhum conflito nisso!) Há décadas as agências fiscalizadoras  vêm tentado descobrir maneiras de contornar essa falha fundamental no modelo de  negócios do setor, colocando em vigor todo tipo de regras exigindo que os  auditores sejam "independentes", por mais tola que essa noção possa, por vezes,  parecer. Apesar disso tudo, continuam assomando novas ondas de escândalos  contábeis,.

No entanto, o próximo passo lógico - tirar da profissão contábil a sua  galinha de ouro, tornando as auditorias voluntárias, em vez de obrigatórias,  para as empresas de capital aberto -, sempre pareceu uma péssima ideia, porque  seria praticamente um convite para mais fraudes. Nem há muito apetite para que  terceiros, como governos nacionais, paguem pelas auditorias nas empresas. Os  resultados provavelmente não seriam melhores.

Pelo menos, o público pode deleitar-se com o valor de entretenimento em todos  esses escândalos. Pode não haver fiapos de otimismo quando tanta riqueza e  tantas vidas são destruídas, mas é algo capaz de nos distrair da conclusão óbvia  de que estamos atados, por ora, a um sistema que, muito frequentemente, não  funciona.

O maior temor para o cartel das Quatro Grandes deve ser que os investidores  um dia fiquem tão fartos, que exijam uma mudança total no status quo, por  concluir que nada têm a perder. Ainda não chegamos a esse ponto, mas poderemos.  Se as auditorias não conseguirem descobrir uma forma de reincutir valor em seu  produto mais básico, até mesmo soluções horríveis poderão começar a parecer  melhorias substanciais.

Jonathan Weil é colunista da Bloomberg. As opiniões expressas neste  artigo são pessoais.

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